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22 junho 2020

Civil+iz+ação

O que é essa tal civilização? É seguir regras? É ser normal? Mediano, medíocre?

É ignorar as dores do mundo? Brincar de Pollyanna transformou-se em ter que ser resiliente? Ora, eu não sou uma barra de aço para ser resiliente. 

Seres humanos têm palavras melhores para definirem sua capacidade de passar por problemas.

Que civilização é essa que quer emprestar termos de objetos e ignorar a complexidade da alma! Do cérebro! Daquilo que é inominável.

Somos compostos de emoções. Para quê aprisioná-las em caixinhas? Qual é o sentido de nos sufocarmos em polímeros?

Eu não quero isso pra mim. Quero rasgar essas tantas camadas e deixar à flor da pele. Se arder ou queimar é porque algo está errado. E, se doer é pra corrigir. Fazer certo. Não ferir para não ser ferido. 

Acelerar o ritmo de crescimento de plantações e de animais para saciar o apetite de uns e fazer sofrerem outros não me parece uma boa ideia. Construir algo, da mesma falida forma, em cima do que já se sabe estar ruindo é loucura! 

Ignorar o diferente, aprisionar o oposto, soterrar a dor intelectual com remédios ao invés de entendê-la é covardia! 

O que é civilização então? Compartilhar papéis, consolar ao outro, apoiar e ser apoiado, unir-se? ou dividir, confrontar e destruir? 

Civilização é só economia, política e desenvolvimento tecnológico ou é sociologia, biologia e depois o resto? 

Pode não ser assim, mas fato é que do jeito que está, não está certo, isto tenho certeza que não!

17 março 2012

Vida é Escolha

Em alguns momentos de nossas vidas nos sentimos vazios, ocos, descobertos de felicidade ou satisfação plena. Preguiçosos que somos dizemos logo:

-É porque estou solteiro.
- É porque estou em um relacionamento ruim.
- Por causa do meu trabalho.
- Porque estou sem trabalho.

Milhares de frases, como as acima, estão sempre na ponta língua. Uma verdade que parece ser mais difícil de alcançar é aquela que vem do esforço. Sortudos os que vêm por um insight. Acaso ou esforço sempre é um lance de sorte. Explico.

Mesmo quando nos esforçamos arduamente, nos empenhamos como nunca antes e temos a maior força de vontade do mundo, nem sempre o resultado – que queremos- é atingido. Longe das verdades absolutas, perto das possibilidades infinitas, me parece que o motivo para nossa frustração reside no nosso sucesso mágico de outras vezes.

Por exemplo, uma vez (ou muitas vezes) usei remédios para emagrecer. Os resultados eram fantástico. Quilos e mais quilos perdidos mesmo comendo carolinas todos os dias. Isso tudo mesmo sem fazer nenhum tipo de dieta balanceada. Algum tempo depois, e doses cavalares aumentadas e o único efeito da medicação foi irritação e falta de sono.

Em outros momentos, tristes e desanimados, lançamos mão de um sem-fim de remédios psiquiátricos para dar um ‘gás’. Nossa produção aumenta e tudo parece ter mais sentido. A energia volta e dizemos estar no melhor momento de nossas vidas. Quem não toma um anti-depressivozinho vez ou outra?

Ou mesmo querendo aproveitar noites sem fim usamos as inofensivas bebidas energéticas combinadas com álcool ou até mesmo uma balinha ou outra droga ‘recreativa’.

Algum tempo depois, e não muito, a vida joga um véu negro sobre nós e já não é tão fácil encontrar aquela deliciosa alegria de viver de antes. Uma conquista ou duas parecem não ser o suficiente. Claro, ‘eu quero sentir aquele big-bang’ de contentamento que sentia antes com a ajuda externa.

É, assim fica cada vez mais difícil emagrecer, animar-se, ter disposição, sentir-se feliz. Aí lançam-se novas drogas e alternativas para conseguir tudo novamente. Tudo mais difícil, poucas vezes não.

Seremos dependentes dos agentes externos eternamente? Os agentes internos dariam conta sozinhos?

Uma coisa é garantida, vida é escolha. E escolhas, são reversíveis. A que preço? Ah.... o preço....  

05 março 2012

Vida era atalho, agora é trabalho

Não vivi tragédias. Não tive histórias de dignas de páginas policiais. O que tenho são dilemas existenciais.
Sofro de busca de sentido na vida. Não aceito uma vida sem sentido. Isso dói às vezes e parece que toda força se esvai.

Hoje, sei que preciso inventar algo que faça sentido pra mim. Ainda assim, não é fácil. Gonzaguinha já disse: vida é trabalho. Eu sempre disse: vida é atalho.
Depois dos 30 entendi que Gonzaguinha era quem estava certo. Ao menos depois dos 30. Por isso, vamos ligar os motores a pleno vapor e deixar o carro desligado na descida pra relaxar um pouco. 

16 janeiro 2012

Zelig Wood e o fim da Lâmpada Mágica

Tenho andado por atalhos há um bom tempo.

O corpo que tive não era meu.

Os jogos de dados mallarmaicos estão deixando de ser um lance de sorte.

Dos três pedidos ao gênio da lâmpada, já usei dois.

As passagens secretas estão se desmontando depois de serem usadas. E as palavras mágicas estão em outras línguas.

Beirando os 30, me dei conta que tudo isso só foi possível por um terço de vida (afinal quem dúvida que possamos chegar aos 90?). Então, o corpo não responde mais com tanta pressa; o cérebro dá sinais de cansaço e não suporta mais a caótica metrópole sem ao menos dar sinais de estafa.

Caminhar até Ítaca por trilhas curtas só dá certo por um período. Ao menos os ciclopes também já estão hipermetropes. Explico: a partir de agora não existirão mais tantas fórmulas milagrosas para conseguir o que se quer sem que haja esforço, foco e perseverança. Os acertos que não precisaram ser rascunhados, agora, requerem folhas e mais folhas de papel amassado até chegar à versão final.

Escrever uma grande obra de cá adiante exigirá muito rascunho.

Não há mais tempo para se vestir de Leonard Zelig e agir como camaleão para aprovação alheia.

Então, é tempo de planejar, pensar antes de falar e, só então arriscar. Ainda assim com grandes chances de errar. E errar feio!
Pra recomeçar vai ser proibido comparar com os tempos de atalhos.

Para o próximo terço de vida sugiro que guardemos um dos pedidos ao gênio... um pedido por amor.

03 outubro 2011

Lembrar para esquecer

As voltas com aquela sensação. Aquela sabe? da insegurança, da dúvida, da desconfiança, da baixa autoestima, do será-que-é?


Aquela suspeita sobre bater e encarar, ou correr e se esconder. Ah se eu estivesse mais magro, se minhas roupas fossem mais descoladas, ou mais sérias, ou mais sóbrias... e aí vem o pensamento de uma nobre amiga. “Se beleza bastasse, a Luana Piovani não teria metido um par de chifre no Rodrigo Santoro”.


Simplista ou não, essas não são reais razões para viver. Apenas um monte de inseguranças que nos afastam de nosso coração.


Tente então se lembrar. Recordar de como era viver de um modo melhor. Por mais que pareça estar longe, está dentro. Nos sonhos mais selvagens. Nas noites mais intensas. Nas manhãs mais lentas. No ontem, no amanhã, no hoje. Não sei importe se não conseguir agora. Apenas apague as luzes..


...Tente se lembrar....

10 setembro 2011

Loniness X Aloneniness (Isolado ou Sozinho)



Querer ficar sozinho tem sempre um tom de pesar? Nunca entendi alguém que sofre querer ficar só.

Tenho uma amiga que vira e mexe diz, em pleno sábado, que quer ficar bem, em casa, de pantufas, assistindo Zorra Total na TV. (assim mesmo, cheio de vírgulas). Um dos poucos momentos que a vejo respirando. Sempre encarei essa frase com certa tristeza. Como se ela quisesse dizer “Socorro, estou sozinha, me ajude!”.

Muito tempo passou desde a primeira vez que me disseram sobre a importância de ficar sozinho e, parece que continuo com dificuldades para colocar esse conceito em prática. Sempre achei um despautério quando ouvia pessoas dizerem “Preciso ficar só...”.

Como assim preciso? Pra mim estamos sozinhos o tempo todo. O correto seria dizer “Preciso de Companhia”.

O fato é que no nosso cenário, levamos tão a sério a coisa do coletivo para poder sobreviver que deixamos de ser singular para poder transcender. É meio psicanalítico sabe? Quando estamos sozinhos passamos a enxergar o outro e aí podemos ser mais de nós mesmos e deixar o outro ser mais dele.
Só ficando um tempo sozinho é que dá para entender que ficar em casa sábado a noite não é algo penoso ou triste, é algo como não sucumbir ao coletivo no dia e horário símbolos máximo do agrupar-se. Aquela minha amiga bonita, alto-astral, inteligente, que nada tinha a ver com uma pessoa sem amigos talvez nem soubesse o quanto estava me ensinando.

A atriz da novela da novela das 8 de vinheta brega, tinha algo a dizer também com seu bordão. Apesar da voz rouca infantil e quase mimada, mostrava que realmente queria ficar com seus botões ao invés de flanar com as amiguinhas ou torrar o cartão de crédito do pai com a mãe para esquecer dores de amor.

O melhor de ficar sozinho é ficar por opção. Não o tempo todo. Contudo, quando escolher ficar sozinho, poder lembrar que tem amigos que se importam e que amanhã pode procura-los. Se estiverem ocupados, tudo bem... dá pra ficar bem sozinho por hoje. 

06 maio 2011

Cravos e Uvas

Dormir para mim é higiene mental. Quando não durmo, fico sujo o dia todo. Sensação física mesmo. Como se não tomasse banho há dias. Ando sem dormir direito, logo, recorro ao consultório virtual que é este blog.
Que as pessoas tenham necessidades estamos carecas de saber. E o que pautam essas necessidades? Ego, ego e mais ego. Não me venham com discursos vazios.

Quantas vezes uma necessidade é real? Raríssimas. As minhas são raras, porque as suas não seriam? Para com isso vai.... sem hipocrisia por hoje. A minha atual grande crise é essa. Qual é minha real necessidade? O que me motiva? O que me mataria se fosse tirado de mim? Não aprontei muito, aprontei na medida. Tem um pouco pra aprontar, mas sem perder a mão.

Certamente perder minha leveza não é. Não sou nada leve. Sou intenso. Pessoas intensas não são leves. São pesadas, perigosas. Divertidas também, admito. Corro da leveza por medo de ficar apático. Então, ao se defrontado pela possibilidade de ter que desacelerar.... falta o ar!

Que mania que muitas pessoas têm de achar que eu sou santo, príncipe. O próximo que disser isso vou mostrar minha auréola amassada e minhas asas despenadas.

E se eu não puder curar o mundo? E se eu perceber minha insignificância de ter que me contentar em ser só um cuidado paliativo? E nem dar minha própria vida (o bem mais valioso que posso oferecer) for o suficiente?

Mártires de todo o mundo deviam ter tanatos muito mais presente que pulsão de vida. É impossível pensar em ser mártir para correr o risco de dar o que tem de mais valioso sem ter certeza que vai ‘obter a graça desejada’. Melhor é fazer uma promessa, acreditar no divino.... bom... eu vou continuar pensando. Assim, continuo vivo. Trocando um cálice de cicuta por uma taça de vinho e um maço de cigarros de cravo.

29 dezembro 2009

Passividade ou Tolerância?

Não vou abusar de metáforas para não correr o risco de não ser claro.

Tenho pensado e vivido alguns conceitos comuns ao nosso tempo: sociedade, espaço, respeito, violência. Já falaram sobre o problema do difícil controle com a enorme extensão das cidades (Rousseau), da intolerância ou tolerância (Marcuse), da sociedade (Freud e Jung) e da violência (Foucault). A minha parte aqui está no quanto ler tudo isso não me mudou – ainda- efetivamente.

Acho que é como ler o Pequeno Príncipe sabe. Quando se é pequeno você lê e ok. Quando se é adulto, você lê, sorri e chora emocionado com Saint-Exupery.

Ultimamente tenho ficado tenso com esses episódios nas salas de cinema de São Paulo. E muitos amigos têm notado o mesmo. As pessoas se apropriaram tanto da cultura do “To pagando”.... que conversam, falam alto durante a sessão, sem se importar com os outros que, teoricamente, foram lá para assistir a um filme. Acho que esse era o grande medo de Adorno ao pensar a Arte como negação; a massificação das coisas fazer as pessoas perderem qualquer limite de onde é a sala de estar da casa delas e de onde é o espaço público. Dessa vez não suportei uma criança de 4 anos a chorar, levada pelos pais para assistir a projeção de um filme de terror. Resisti menos ainda ao casal barulhento que conversava sobre as cenas atrás de mim. Coitados, eles sequer viram problema em estarem conversando. Vide o que o homem do casal me disse : “Mas está todo mundo conversando”. Perdi a linha. Fiz escândalo. Fui alertado sobre os perigos de ter feito isso por alguém que me ama.

- “Nós poderíamos ter levado um tiro!”

Achei que poderia ser uma possibilidade, mas eu não poderia suportar aquilo calado. Pra mim seria ser permissivo. Conivente.

Na ordem dos acontecimentos li uma coluna da Soninha na Vida Simples “Odeie seu Ódio”. E que raiva me deu da Soninha. Tão ativista. Forte para querer mudar os mundos ao redor dela. Tendo essa postura passiva que eu condeno tanto?

E o mundo continuou girando e esfregando na minha cara como está. Até o estalo.

Meu melhor amigo me liga há pouco para falar que procedia tomar cuidado com OS OUTROS visto nosso nível de exigência e, certa intolerância. E disse:

- Na mesma noite que você foi tomar café da manhã, de madrugada, na Dona Deôla, no nobre bairro de Higienópolis, poucos minutos depois de sua saída, um jovem foi esfaqueado pelo ‘segurança’ da padaria após uma discussão.

Esse foi o alerta do meu melhor amigo. “Tome cuidado”. Ele lembrou ainda de um dia que uma mulher cortou a frente do carro dele e buzinava histericamente. Eu, extremamente incomodado com a grosseria com uma pessoa que amo tanto, passei pela mulher a vociferei algo que não lembro bem. Depois (só soube disso hoje) a ‘segurança’ do estacionamento que estávamos foi falar com meu amigo e disse:

- Fale para seu amigo ter cuidado. Sei que a mulher estava sendo desagradável. Mas eu, que trabalho aqui, estou cansada de ver gente que dá tiro, e age com violência com outras pessoas por bobagens. Fala pra ele não fazer mais isso que pode dar de cara com um louco desses!

Fofa a mulher não é? Pois é, e ela emendou:

- Sabe, eu sou policial também. E se o seu amigo tivesse xingado a mim, eu perderia a cabeça e não me custaria muito dar um tiro nele.

Meu amigo, chocado, e também perdendo a noção do perigo, retrucou:

- Então você não deveria ser policial né?!

Arriscou-se naquele momento também. Vai saber que tipo de louca ela era?

Bem, não querendo ser um desses loucos. Decidi fazer de 2010 um ano de tolerância. E fui ler sobre a notícia do garoto morto na padaria. Foi então que vi a foto. O garoto estudou comigo em um colégio nobre de São Paulo. Ele não era dos sujeitos mais calmos da classe. E o ‘segurança’ da padaria, bem, ele não era bem segurança. E tampouco estava preparado para orientar pessoas.

O fato é que essas pessoas estão por aí. Com facas na cintura, revólveres devidamente cadastrados e, muitas vezes, deveriam nos proteger. Nem sempre o fazem. Se somos nós quem consegue pensar, que tal não sermos mais agressivos nas palavras e nos pensamentos?

Alguém mais se junta a mim na campanha 2010: Ano da Tolerância!

15 novembro 2009

Corpo meio cheio ou meio vazio?


Em busca de segurança feudal e troca das dores da liberdade pelo pertencimento ao grupo e segurança, algumas drogas receitáveis parecem aflorar um aspecto imanente da natureza humana. Comer é fundamental para sobreviver. Comer muito serve para além de preencher o vazio do estômago, preencher o vazio da alma ou aquietar a mente. Como se nada dentro de nós pudesse ficar vazio. Boca, garganta, estômago, intestino grosso, delgado, reto.

Algo como se no decorrer de nossos dias as mãos não pudessem ficar vazias por muito tempo e, por isso os anéis, as canetas, os cigarros, as armas, as luvas e os carros. Nem sequer pés desnudos: as caminhadas, academias, esteiras, bicicletas, sapatos, escalda-pés, kung-fu e capoeira. Nem mesmo a alma. Amores, religiões, drogas, meditação, regressão de vidas passadas, presentes e tarô.

E a mente? Terapia, artes, conversas, diálogos, triálogos, bacanais, escola, mais escola, congressos e cursos, palestras, livros e filmes. E então, quando percebemos as mãos estão doloridas e o dedo indicador paralisado com tendinite pelo scroll do rato que mexe o cursor do computador.

E o estômago com câimbras agudas por ter engolido tanta comida, traumas, desmandos e prazeres. Spinoza disse para fugirmos das paixões tristes. E o capitalismo, o que diz? Que não se destrói se supera. Os incômodos não são “antecedíveis”, então, evite os exageros diários. Se fosse assim seria fácil. Alguém aí consegue lembrar o quanto sofreu da última vez que comeu em exagero, apaixonou-se, quebrou o pé, o dente, teve cólica renal? Sempre esquecemos e superamos aquele ponto. E reincidimos. E se é assim, que seja reincidir pelas paixões felizes.