16 Janeiro 2012

Zelig Wood e o fim da Lâmpada Mágica

Tenho andado por atalhos há um bom tempo.

O corpo que tive não era meu.

Os jogos de dados mallarmaicos estão deixando de ser um lance de sorte.

Dos três pedidos ao gênio da lâmpada, já usei dois.

As passagens secretas estão se desmontando depois de serem usadas. E as palavras mágicas estão em outras línguas.

Beirando os 30, me dei conta que tudo isso só foi possível por um terço de vida (afinal quem dúvida que possamos chegar aos 90?). Então, o corpo não responde mais com tanta pressa; o cérebro dá sinais de cansaço e não suporta mais a caótica metrópole sem ao menos dar sinais de estafa.

Caminhar até Ítaca por trilhas curtas só dá certo por um período. Ao menos os ciclopes também já estão hipermetropes. Explico: a partir de agora não existirão mais tantas fórmulas milagrosas para conseguir o que se quer sem que haja esforço, foco e perseverança. Os acertos que não precisaram ser rascunhados, agora, requerem folhas e mais folhas de papel amassado até chegar à versão final.

Escrever uma grande obra de cá adiante exigirá muito rascunho.

Não há mais tempo para se vestir de Leonard Zelig e agir como camaleão para aprovação alheia.

Então, é tempo de planejar, pensar antes de falar e, só então arriscar. Ainda assim com grandes chances de errar. E errar feio!
Pra recomeçar vai ser proibido comparar com os tempos de atalhos.

Para o próximo terço de vida sugiro que guardemos um dos pedidos ao gênio... um pedido por amor.

12 Novembro 2011

Em busca de Sentido

Em algum lugar, não muito distante daqui, uma moça com brilho nos olhos castanhos escuros se prepara para sua festa de casamento sem se dar conta de a madrinha de seu noivo não a querer bem.


Em outro quarteirão, nem tão afastado, um rapaz de pernas bambas espera sua grande entrada para encenar seu sonho de verão. Ele não faz ideia de na plateia estar um menino gordinho que queria estar em seu lugar.


Perto de lá, um grupo de jovens bebe e ri alto enquanto decidem o que fazer para salvar o mundo. Mal podem notar a garçonete louca para sentar entre eles. 


O mesmo mundo de uma bailarina manca que, para continuar dançando, ensaia sua dança do ventre no mesmo instante em que sua irmã a olha com ar de reprovação pelo perigo de se machucar, e por ser ela a querer ter a força de não desistir.


No mesmo lugar em que uma velha senhora completa seu passatempo para o cérebro não atrofiar, sua nora a classifica como à-toa. Sendo ser ela quem queria brincar um pouco para não deixar seus pensamentos tão escuros.


Todas pessoas com consciência plena para não deixar o dia apenas passar. 


Sem se dar conta fazem o tempo não bastar para elas. 


Cada um deles está aqui e acolá o tempo todo, agindo, só é preciso notar. Os olhos alheios, ah, esses serão sempre coadjuvantes.Quando você notar isso irá entender o sentido da vida. 



Foto: Olhares  editada

03 Outubro 2011

Lembrar para esquecer

As voltas com aquela sensação. Aquela sabe? da insegurança, da dúvida, da desconfiança, da baixa autoestima, do será-que-é?


Aquela suspeita sobre bater e encarar, ou correr e se esconder. Ah se eu estivesse mais magro, se minhas roupas fossem mais descoladas, ou mais sérias, ou mais sóbrias... e aí vem o pensamento de uma nobre amiga. “Se beleza bastasse, a Luana Piovani não teria metido um par de chifre no Rodrigo Santoro”.


Simplista ou não, essas não são reais razões para viver. Apenas um monte de inseguranças que nos afastam de nosso coração.


Tente então se lembrar. Recordar de como era viver de um modo melhor. Por mais que pareça estar longe, está dentro. Nos sonhos mais selvagens. Nas noites mais intensas. Nas manhãs mais lentas. No ontem, no amanhã, no hoje. Não sei importe se não conseguir agora. Apenas apague as luzes..


...Tente se lembrar....

10 Setembro 2011

Loniness X Aloneniness (Isolado ou Sozinho)



Querer ficar sozinho tem sempre um tom de pesar? Nunca entendi alguém que sofre querer ficar só.

Tenho uma amiga que vira e mexe diz, em pleno sábado, que quer ficar bem, em casa, de pantufas, assistindo Zorra Total na TV. (assim mesmo, cheio de vírgulas). Um dos poucos momentos que a vejo respirando. Sempre encarei essa frase com certa tristeza. Como se ela quisesse dizer “Socorro, estou sozinha, me ajude!”.

Muito tempo passou desde a primeira vez que me disseram sobre a importância de ficar sozinho e, parece que continuo com dificuldades para colocar esse conceito em prática. Sempre achei um despautério quando ouvia pessoas dizerem “Preciso ficar só...”.

Como assim preciso? Pra mim estamos sozinhos o tempo todo. O correto seria dizer “Preciso de Companhia”.

O fato é que no nosso cenário, levamos tão a sério a coisa do coletivo para poder sobreviver que deixamos de ser singular para poder transcender. É meio psicanalítico sabe? Quando estamos sozinhos passamos a enxergar o outro e aí podemos ser mais de nós mesmos e deixar o outro ser mais dele.
Só ficando um tempo sozinho é que dá para entender que ficar em casa sábado a noite não é algo penoso ou triste, é algo como não sucumbir ao coletivo no dia e horário símbolos máximo do agrupar-se. Aquela minha amiga bonita, alto-astral, inteligente, que nada tinha a ver com uma pessoa sem amigos talvez nem soubesse o quanto estava me ensinando.

A atriz da novela da novela das 8 de vinheta brega, tinha algo a dizer também com seu bordão. Apesar da voz rouca infantil e quase mimada, mostrava que realmente queria ficar com seus botões ao invés de flanar com as amiguinhas ou torrar o cartão de crédito do pai com a mãe para esquecer dores de amor.

O melhor de ficar sozinho é ficar por opção. Não o tempo todo. Contudo, quando escolher ficar sozinho, poder lembrar que tem amigos que se importam e que amanhã pode procura-los. Se estiverem ocupados, tudo bem... dá pra ficar bem sozinho por hoje. 

04 Setembro 2011

Meia vida


Como é voltar a não dividir a vida?

Não é preciso muito tempo para nos acostumar à presença de alguém que tivemos convivência doméstica. Cinco meses foram o suficiente. Acredito que a duração dos  relacionamentos deve ser contada em anos. O resto é carência ou experimento.

Sempre insisti em dar certo. De uns tempos para cá parei com isso. Diminui de três anos para dois, outro de dois e meio e um último de dois. Os dois últimos nove meses e cinco meses respectivamente. Cada um com uma particularidade. Confesso que resultaram em amadurecimento. Tanto para buscar histórias melhores quanto para não machucar pessoas.

Quanto mais querida uma pessoa menor a vontade de machucar. Terminando ou terminado, o fim é sempre difícil. Como lidar com o vazio?

Quando temos alguém, pensamos nossa agenda baseado em mais uma opinião além da nossa. Outra vontade, outros desejos, compartilhados ou não, buscamos equalizar as decisões.

Já sozinho, as decisões são exclusivamente nossas. É o que nós queremos, quando queremos e como queremos. No começo isso para inadequado e até errado. Como posso eu sair à noite sem pedir autorização ou avisar outra pessoa? Como posso não ter alguém a quem me dirigir?

Acostumar-se à liberdade é penoso. Imploramos quase que de joelhos para sermos controlados. O tempo todo. A decisão é sempre nossa. Difícil é decidir por ser livre. 


14 Agosto 2011

Empregado X Empregador


Na lista dos prós como empregado estão uma certa estabilidade, resumir as atividades a serem executadas de acordo com sua profissão e algo mais que está difícil pensar agora. Entres os prós de ser empregador estão liberdade para tomar decisões, ampliação do envolvimento integral e mais rentabilidade.

No lado de pontos negativos de ser empregado estão: limitações severas: financeira, para tomada de decisões e aplicações de ideias. Como empregador, (des) controle administrativo, falta de tempo para desempenhar a profissão e, constante falta de suporte negocial.

Tentando entender qual é o melhor caminho pensei, ‘onde entra minha vocação nisso tudo’?
Recentemente ouvi dizer que nossa vida de trabalho está dividida em alguns momentos. Profissão, Emprego e Vocação. Estou na luta pela busca da vocação. Quantos de nós não estão? Muitos!

Viver em grandes metrópoles e, cada dia mais nas pequenas também, envolve uma angústia diária. De dar conta de duas coisas ao mesmo tempo, de alcançar cada vez mais objetivos inalcançáveis, de torna-los alcançáveis até encontrar novas quimeras. Entre um momento e outro encontramos os amigos e a família. 

Nesses momentos costumamos falar do passado ou das dificuldades dos momentos atuais e, por que não, também das utopias futuras. Aí existem as pessoas que preferem calar a angústia gritante ocupando-se de empregos até encontrar ou não, sua vocação neles. Há ainda os que querem vocações que não existem mais. E os que querem reinventar vocações.

Como escutar o chamado interno? O tal vocare? No silêncio muitos dizem. Prefiro buscar no compartilhamento e interação. Em certo momento confesso que é preciso do silêncio. Mas só o silêncio não basta.

Ficar no silêncio é como ser empregado. Falar demais é como ser empregador. 

09 Julho 2011

E-mails não substituem cartas de suicídio


Quando pensamentos desesperançosos chegam ao ápice, muitas pessoas querem não colocar fim a própria vida, mas sim, a dor.

“Há uma censura do suicídio. Política, religiosa, social, natural até, pois a senhora Natureza não gosta que tomemos liberdades com respeito a ela, quer manter-nos sob suas rédeas até o fim, quer decidir por nós. Quem decide em relação à morte dos homens? .... A sociedade decide, assim, a data da nossa morte pela qualidade da nossa alimentação, pela periculosidade do nosso ambiente cotidiano, pelas nossas condições de trabalho e de vida...” (Martin Page em Como Me Tornei Estúpido)

Quando você finalmente tiver decidido pôr fim à própria vida, tome alguns cuidados. Pense cautelosamente. Não aja por impulso. Não se pode morrer duas vezes.

Escolha como vai fazer, quais as garantias para obter sucesso, o motivo da escolha, os prós e os contras, o que sente de verdade. Sentiria-se do mesmo jeito caso algo mudasse? O que poderia mudar? A maior parte das coisas do mundo é reversível. Trazer alguém de volta à vida é impossível. Diga, honrar o nome da outra pessoa que já se foi seria insuportável a ponto de não te deixar mudar de opinião e viver por ela?

Qual é o motivo para você querer morrer? E para querer viver? Tem motivos para ambos? A vida é mais penosa? ou seria a morte exterminar todas as chances de viver e de fazer diferente?

Caso tenha decidido pela morte por tão dura, fria e sofrida a vida lhe parecer, escreva uma carta. De próprio punho. Desenhe cada letra cuidadosamente. Se você não é capaz disso, não deve se matar. Se chorar compulsivamente por estar escrevendo a carta, é sinal de que ainda não está preparado para isso.

Mas, antes mesmo de escrever a carta, recolha todo seu dinheiro possível. Visite papelarias, hotéis, bancas de revistas, supermercados. Olhe com atenção tudo que passa ao redor e procure o papel e o envelope mais bonito de todos. O que seja bonito para você. Que faça sentido.

Veja papéis de carta, envelopes de todas as cores... pode ser branco. Desenhados ou lisos. Escolha uma bela caneta. Diferentes tipos de canetas e tintas.

Veja a imensa variedade que existe em todas as coisas e, enquanto isso, espero que perceba que não vale a pena escrever uma carta de suicídio.